PARA ALÉM DA TÉCNICA, HISTÓRIAS DE ADOÇÃO A SE CONTAR

 

Para muitos, a adoção parece um tema distante, reservado apenas às famílias que através de um processo legal legalizam formalmente laços afetivos e tornam-se pais e mães. Mas não, a adoção é um tema mais presente em nossa vida do que imaginamos. Não são apenas pessoas que querem adotar legalmente e crianças/adolescentes que precisam de família substituta que vivenciam a adoção.

São as infinitas posturas adotivas no nosso viver que nos tornam humanos. Somos todos adotados e todos adotamos, afinal, o ser humano adota e deixa-se adotar diariamente para poder sobreviver. Adotamos nossos colegas de trabalho, adotamos nossos amigos, adotamos nossos parceiros, adotamos posturas mais respeitosas com a natureza e assim vivemos a adotar.

São estas posturas adotivas que nos tornam mais tolerantes e que são imprescindíveis para a relações saudáveis. Posturas que além de docilizar a alma, tornam nosso dia a dia mais brando e nos permitem vivências mais saudáveis e mais amplas.

Profissionalmente compartilhamos uma reflexão sobre o tema no que se refere a prática, mesclando estudos científicos e o que aprendemos com as famílias atendidas.

Aqui vamos nos deter em práticas realizadas no judiciário, um universo marcado pela seriedade e compromisso com a justiça e garantia de direitos. Por muito tempo os técnicos que formam as equipes de assistentes sociais e psicólogas eram vistas como detentoras de um saber incontestável e práticas limitantes e horizontalizadas ditavam os encontros entre os profissionais e as famílias atendidas.

Mas graças à ousadia, e porque não rebeldia de alguns, as experiências do dia a dia, a busca por ampliação de conhecimento e uma construção coletiva de saber, o Serviço Social e a Psicologia caminham na busca por uma atuação de excelência, que maneje técnica e humanidade. E de uma forma mais “ombro a ombro” foi abrindo-se e aprendendo com cada família, cada dor e cada potência a necessidade de construção conjunta de saberes.

Entre as atribuições diversas no que se refere à atuação nos processos de adoção, uma das mais importantes e de repercussões, a curto e a longo prazo, é produção de relatórios ou pareceres. Documentos referendados pelos Conselhos Federais de Serviço Social e Psicologia e que são decisivos nos processos de destituição do poder familiar e, também, no resgate de histórias de vidas. Afinal, a o processo legal será extinto, mas aquela criança ou adolescente adotado irá crescer e o resgate de sua história deve ser assegurado com respeito, segurança e acolhimento.

A adoção no Brasil com foco no melhor interesse da criança e do adolescente é jovem e ainda permeada por mito que legitimaram, e ainda legitimam, ideias equivocadas sobre esta modalidade familiar.

A sombra do seu caráter caritativo e desconexão com um contexto social mais ampliado, ainda dá margem à desqualificação da família biológica. Devemos sempre lembrar que a prática profissional e seus instrumentos reproduzem ideologias e que devem ser recorrentemente melhorados, a fim de fato garantir direitos e transformar realidades, trazer melhorias sociais e culturais.

IMPACTO DAS INTERVENÇÕES NO UNIVERSO ADOTIVO

No universo adotivo, devemos atuar imaginando os impactos de nossas intervenções a curto e longo prazo, pois como já afirmamos, o bebê, a criança ou o adolescente crescem e devem ter garantido o acesso a informações que os auxiliem no resgate de sua história de origem.

Ao buscar documentos, relatórios ou pareceres psicossociais produzidos no passado podemos encontrar os documentos embasados quase que exclusivamente no binômio ADOÇÃO/ABANDONO. Apartados de todas suas transgeracionais e sociais motivações.

Um caso em particular nos chamou atenção, ele continha o relato que a criança havia sido “abandonada” no hospital pela mãe. Quem buscava a história era a “criança abandonada”, que na ocasião tornara-se uma jovem. Em meio a seu entrar na vida adulta, ela decidiu resgatar os capítulos faltantes na sua história.

Seus olhos atentos e tristonhos, leram rapidamente as poucas folhas esbranquiçadas e gastas pelo tempo que diziam em secas palavras que ela fora abandonada. Ao seu lado, pedimos que ela nos explicasse o que hospital representava para ela, e logo ouvimos “lugar de cuidado”.

E com um simples acolhimento foi possível ressignificar uma sentença dura, cruel e fria. O abandono converteu-se em “ser deixada em um lugar de cuidado” e assim, aberto caminho para novas leituras de um ato tão marcante e significativo.

Mais que uma explicação técnica, os documentos produzidos também contam histórias. Histórias reais, que envolvem alegrias, dores, sonhos e desafios. É preciso avançar… manter a técnica, mas nos conectarmos com o humano, com o sentir. E lembrar o que Paulo Freire dizia: “mudar a linguagem é mudar o mundo”.

Como você se sentiria se ao resgatar sua história se deparasse com um mero documento frio, legalista, moralista e carregado de valores de quem o produziu? Ou ler que seu nome foi escolhido porque tem um belo significado? Ou ter a informação que mesmo diante de todos os desafios e sabendo que não ia poder te criar, sua mãe optou por manter a gestação?

O resgate da nossa história de vida é por si só um desafio permeado de sentimentos contraditórios, sejamos filhos de famílias adotivas ou não. Perguntas como de onde vim, quem sou, porque minha história é essa são comuns a todos nós, imagine só o quão importante são para quem cresceu em família substituta.

Falamos tanto de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, mas muitas vezes ainda os privamos de um direito fundamental, dele próprio ter detalhes de sua história de origem.

É hora de tornaremos constantes os registros minuciosos nos processos de destituição de destituição familiar, ou seja, nos processos em que se determina que uma criança ou adolescente irá para adoção. E sempre que possível, incluirmos fotos, áudios e vídeos que (às vezes) que for possível ter das famílias biológicas.

CASOS QUE INSPIRAM UMA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DIFERENCIADA

Há diversos casos emblemáticos e são eles que devem nos inspirar a seguir atuando de forma diferenciada. Há um caso relatado de uma mãe, já na quinta gestação que novamente perdeu o direito legal sobre seu bebê.

Unidade de acolhimento e técnicos da justiça uniram esforços para propiciar um último encontro entre mãe biológica e filho. Uma mulher assustada, com medo, que mesmo reconhecendo não dispor dos meios de maternar naquele momento, desejava despedir-se de seu filho.  Descobrimos que além de não ter recursos para ir à Unidade, havia o receio de ser presa, de ser julgada e destratada. Medos agravados ao fato dela ser toxicodependente e não ter amparo de uma rede familiar ou social fortalecida. Claro que esta não é uma ação comum e deve acontecer apenas quando temos um suporte e certeza que trará benefícios à criança.

A mãe foi trabalhada para despedir-se de seu bebê e o abençoá-lo e nos deu autorização para que filmássemos o encontro. No futuro ao ver esse vídeo, a criança, possivelmente, já adulta, poderá ter mais instrumentos afetivos e emocionais para entender sua história e poderá acolhê-la sem ira ou mágoa. E a mãe, também pôde manifestar seus sentimentos e sentir-se acolhida nas suas dores e limitações.

Por anos a família biológica foi apenas “demonizada” e julgada como algo muito ruim, que deveria a todo custo ser afastada. Não à toa, é recente o entendimento que a adoção não tem que ser tratada como tabu ou algo a ser escondido.

Hoje observamos muitos profissionais da justiça adotando o procedimento de ser um pouco “arqueóloga das emoções”, buscando informações e elementos para a produção de um relatório ou parecer de destituição. Toda informação é preciosa. Desde saber se a mãe realizou pré-natal, como foi a gestação, ou dados mais demográficos, onde nasceu como foi sua infância, sua escolaridade. Fundamental também é localizar, quando possível, fotos de demais parentes, a história do nome, ou qualquer informação sobre esta história… Tudo, absolutamente tudo, é tesouro a ser resgatado quando a pessoa buscar suas origens.

Obviamente não estamos falando de falsos registros ou de ocultar os problemas e fatores que culminaram na destituição e motivos que levaram a não poder crescer junto sua família de origem. Mas, falamos sim de uma escrita eticamente comprometida, que amplie seu alcance e que contextualize de fato essas famílias. Que seja atenta à complexidade das situações que levam a uma destituição e, suas implicações. Sem afeto e empatia isso nunca será possível!

Dizem que “No mundo, o lugar mais difícil de se estar é no lugar do outro”, mas é nesse lugar, e ainda no lugar de profissionais, que devemos estar na produção de documentos sobre a adoção. Lembrando que não somos produtores de provas, e se caminharmos por esse viés, devemos ser produtoras de provas de que os rumos possíveis acontecem, que existe um contexto de várias ordens operando, principalmente social e econômico, e que … nunca, nunca devemos contribuir para a desqualificação da família biológica, focando apenas nas suas dificuldades. Mas sim, enxergar suas qualidades, valores e possibilidades. Afastando qualquer concepção moralista.

Atitudes à princípio simples podem ser reparadoras e acalentar tanto a família biológica como futuramente a criança/adolescente que precisou ser colocada em família substituta. Por exemplo, a gravação em audiência de uma mensagem dos pais, a confecção de uma carta, um desenho, ter respeitado a escolha do nome, simples cuidados que injetam saúde nessas histórias.

Assim, manter nosso compromisso e posturas adotivas no fazer da adoção é um dever de todos, em um consciente e permanente exercício de acreditar nesta forma de construção familiar.

Autora: Danielle Gonçalves Correia: Psicóloga pela Universidade Federal de Rondônia (2003). Foi colaboradora voluntária do Centro de Defesa da Criança e Adolescente; desde 2009 analista judiciária – psicóloga – Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, atuando na avaliação e preparação de pretendentes à Adoção e na Colocação em Família Substituta de Crianças e Adolescentes. Membro parecerista da CEJA (Comissão Estadual Jurídica de Adoção. Experiência Psicologia Jurídica; Especialista em Terapia Familiar Sistêmica (2017); Mediadora do grupo de Leitura Leia Mulheres Porto Velho desde outubro de 2017. Mestranda em Psicologia na linha de pesquisa de Psicologia Escolar e Processos Educativos 2018-2.