DESAFIO PROFISSIONAL NO TRABALHO COM FAMÍLIAS.

“No fundo, no fundo a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto. Mas problemas não se resolvem sozinhos, problemas têm família grande e aos domingos saem todos para passear, o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”  (Paulo Leminski).

Mudou a família, mudou o mundo, mudamos todos e cada um. Sociedade nova, pós-moderna, contemporaneidade, homem novo, nova mulher, internet, globalização, estas são expressões incorporadas à linguagem do mundo atual. O surgimento de uma nova sociedade, de novas configurações familiares e novos sujeitos, não resulta de um ato mecânico. A sociedade nova é (re) construída historicamente, em nosso fazer cotidiano.

Essa crescente complexidade da realidade tem imposto ao profissional um pensar e um agir sob nova perspectiva, com uma visão ampliada para a totalidade. Não há mais certezas, o conhecimento hoje está voltado para o compartilhamento de saberes nas mais diversas áreas, em que caiba no mesmo espaço o uno e o múltiplo, o diverso e o complexo. É um novo desafio em que a ciência atual aceita conviver com conhecimentos fragmentados e, concomitantemente, com a instauração de propostas complementares, concorrentes e muitas vezes antagônicas, nessa busca pela ampliação das fronteiras entre os saberes.

Temos assistido arbitrariedades que ultrapassam nosso entendimento. A violência urbana escancara a brutalidade acontecendo. O que está acontecendo com o homem e a família? Violências domésticas, cruéis por demais, são estampadas nos jornais diariamente, o limite ultrapassou as fronteiras do público e tem se instalado no espaço privado, por muitos considerado solo sagrado, que é a família.

Como trabalhar junto às famílias  e injetar mais saúde nas interações e no convívio familiar? O profissional que aceitar esse desafio que é o trabalho com famílias nesse cenário atual, deve se preparar primeiramente em rever seu próprio contexto familiar. Só assim poderá repensar seu mundo de valores e preconceitos, refletir de modo mais profundo sobre si mesmo e em suas relações familiares. Desta forma, poderá melhor entender as famílias, sem levar seu modelo familiar ‘normal’ para cada atendimento, sem juízo de valores, com mais compreensão, entendimento e generosidade.

Nosso guia básico para a formação e aperfeiçoamento em Terapia Familiar Sistêmica, tem como princípio, desde o começo, completando 20 anos de atuação esse ano, maximizar o crescimento de todos os participantes do processo. Insistimos muito para que o profissional comece aumentando sua capacidade de se envolver, de forma pessoal mesmo, com o outro. A impessoalidade e indiferença já imperam no mundo externo. O profissional para atuar com famílias, precisa se aprofundar e olhar sua própria família sob uma ótica mais complexa, fugindo assim da linearidade de bons x maus, vítima x culpado, etc., interiorizada culturalmente e impregnada socialmente. Os profissionais de família precisam ter sua acomodação de espectador perturbada, para que possam se tornar um participante ativo nesse processo.

Quando se trabalha com histórias de vida, os conflitos, as diferenças, as relações familiares, deve ser evitado projetar valores e modelos de famílias tradicionais às famílias atendidas, certos modelos de vida não servem de referência. Precisamos confirmar a família que está ali na nossa frente, em sua forma original, evitando compará-la a um modelo que não a enquadra. Temos o dever de motivar os membros da família a mudar, mas não temos o direito de dizer-lhes como crescer, nem podemos ensinar as famílias como viver melhor.

Outro ponto importante que trabalhamos na formação de Terapeutas Familiares é a desconstrução dos padrões vigentes que coloca o profissional como ‘PHD’ em Deus, como nos traz o Prof. Adalberto Barreto, de que o profissional deve assumir todos os cuidados e responsabilidades que as famílias apresentam. Quanto mais sentimos a necessidade de assumir a responsabilidade por uma família, menos acreditamos que a família tem competências próprias para resolução de crises. Temos que evitar convencer as pessoas que elas são inaptas. Nosso dever é sermos receptivos para com a família, não sermos responsáveis por eles.

Na formação em Terapeuta de Família trabalhamos o crescimento pessoal dos profissionais, provocando-os a cada aula para que tragam um pouco mais de si. Antes das teorias e técnicas que serão transmitidas e que oferecem segurança, se faz necessário trabalhar a pessoa do terapeuta. Acreditamos que as teorias e as técnicas nos oferecem proteção, confiança e conhecimento, mas nos afastam da coragem necessária para encararmos o trabalho com famílias como um compromisso pessoal.

No conteúdo teórico é transmitido os referenciais existentes para compor a  atuação do profissional, que deverá contar com alternativas para balizar a prática terapêutica, nos esforçamos para convencê-los que essas teorias não são dogmas, eles têm que estar livres para escolher as que lhes pareça mais adequada. Procuramos motivá-los a buscarem suas subjetividades, a valorizar mais seu modo de pensar e de perceber o mundo.

Iniciamos com os conceitos teóricos dentro dos contextos socioculturais e econômicos, com abordagem histórica da família às leituras contemporâneas,  as novas configurações familiares e em seguida iniciamos com as abordagens familiares da teoria sistêmica. O fundamento teórico, que permeia todo o processo do curso é da Teoria Geral dos Sistemas, a abordagem estrutural de Salvador Minuchin e a abordagem estratégica de Jay Haley que são privilegiadas logo no primeiro momento por apresentar de forma transparente modelos comportamentais que geram mudança nas famílias, em seguida apresentamos os autores como Murray Bowen e Ivan B. Nagy, terapeutas psicodinâmicos (sistêmicos e psicanalistas), que trazem a mudanças de pensamento e de crenças,  nas famílias em suas diversas gerações.

O desafio final e o de maior complexidade é o trabalho inter, multi, transdisciplinar, que apesar das diversas denominações e estudos sobre essa temática é o mais difícil de assimilação prática. Lutar com o saber hegemônico é um dos mais calorosos desafios contemporâneos. Quanto mais buscamos a especialidade mais nos distanciamos da totalidade, porém uma não exclui a outra é uma E outra (assim agregadas). Temos que compreender o momento da história que estamos vivendo e sermos mais propositivos que executivos, e para isso precisamos aprender a compartilhar e articular novos saberes.

O profissional que aceitar o desafio contemporâneo com família será aquele que pesquisa, pensa, analisa, reflete, decifra e desvenda uma realidade objetivamente posta, com atitude investigativa para múltiplos saberes. (Iamamoto, 1992). Desta forma, se faz necessário elaborar respostas mais qualificadas em nossa prática e buscarmos uma visão mais social e política  para atender essas demandas familiares e para isso precisamos adquirir novos saberes e novas competências críticas.

Portanto, privilegiar o lado humano na relação com o outro; reconhecer nosso papel no contexto maior em que estamos inseridos, adquirir novas habilidades com abordagens originais para nosso fazer profissional e para darmos respostas mais assertivas nas intervenções junto às famílias, e por último compartilhar saber, considerando que um trabalho de excelência é feito com equipes interdisciplinares, com projetos multidisciplinares e com objetivos transdisciplinares.

Quem faz a diferença não é a profissão é o profissional comprometido com o todo, com o outro e com tudo que for humano, demasiado humano, parafraseando Nietzsche.

Cléo Melo

Referências :
BARRETO, A. P., Terapia Comunitária Passo a Passo , Gráfica LCR – Fortaleza/CE, 2005.
IAMAMOTO, M. Renovação e conservadorismo no Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1992.
MELO, C.P. O Diálogo sistêmico da Família com e o Serviço Social: Do   Re(conhecimento) familiar do profissional ao referencial Sistêmico do Trabalho com Famílias, Dissertação de Mestrado, PUC/SP, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres; tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza – São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
SOUZA,A. M. N. A família e seu espaço. Uma proposta de terapia familiar. ª edição. RJ: Agir, 1996.
WHITAKER, C. & BUMBERRY, W. M. Dançando com a família. Uma abordagem simbólico-experiencial. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.