Ms. Marisa Barradas de Crasto

Quando se fala em violência sexual intrafamiliar, perguntamos como pode o contexto familiar ser um espaço que deve acolher e proteger seus membros contra todo tipo de negligência, crueldade e exploração, ser o foco da violência? É um problema de saúde pública, que envolve aspectos psicológicos, médicos, sociais e jurídicos, que atinge milhares de crianças, adolescentes, mulheres e idosos. Dentre as violências que ocorrem no âmbito familiar proponho refletirmos sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, embora saibamos que outros tipos de violência estão presentes. É um tema complexo, por se tratar de um fenômeno que exige intervenções adequadas e efetivas, devido ao seu impacto no desenvolvimento cognitivo, emocional, comportamental e físico das vítimas. A violência sexual tem sido o segredo mais bem guardado, principalmente quando o agressor é da família, incorporam as forças mais severas da natureza humana. Quando ocorre esse tipo de violência observamos uma história de poder mal utilizado, exploração e traição à inocência. Distorce a experiência de vida, angústia da doença emocional e a dor psíquica implacável! A criança e adolescente que sofre essa violência por parte de familiares próximos, sofre também o abuso emocional, as feridas são invisíveis e profundas. A violência física às vezes está presente, antes, durante ou após a sexual, quando são espancadas e penetradas contra sua vontade, a dor física se mistura com a emocional.

As características do abuso sexual compreende uma disfunção em três níveis: o poder do grande e forte sobre o pequeno e fraco; a confiança, alguém que deveria ser protetor, abusa, da sexualidade. A sociedade e as pessoas muitas vezes perguntam, por que só agora, depois de adulto ele fala do abuso? Por que esperou tantos anos? É uma pergunta de difícil resposta devido aos vários fatores que podem levar ao silêncio e ao segredo. O próprio agressor da família é uma pessoa de “confiança”, deveria proteger, porém impõe o silêncio à vítima, com ameaças das mais diversas, ameaça a vida de membros da família e da própria vítima. Outros fatores do silêncio, a própria surdez e cegueira dos adultos frente aos sinais dados, às vezes o pouco conhecimento por parte dos professores que trabalham com crianças e adolescentes e até o medo de ameaças do agressor, quando descobrem que a criança revelou o abuso sexual. O incesto pai-filha (o) é o mais complexo e difícil de ser provado e revelado.

Meninas vítimas de Abuso Sexual

Nas pesquisas feitas as meninas são atingidas mais do que os meninos e vivem em situações de abuso sexual prolongado. Na adolescência ocorrem também inúmeros casos, porém, pouco notificados. Precisamos estar atentos que nessa relação de abuso sexual há muitas ameaças, além do vínculo afetivo que geralmente envolve o agressor e vítima e a vergonha em relatar situações abusivas.

Meninos vítimas de Abuso Sexual

Com relação aos meninos, a vitimização sexual, vem ganhando destaque, porém ainda pouco estudada, as amostras são insuficientes. Acredita-se que o fato da vergonha, ser visto como homossexual, quando abusado por homem. Em alguns casos atendidos no consultório, observei nos pacientes vítimas de abuso na infância, o pavor em ser homossexual, ouviram piadas na família, como, “não vá virar bichinha”, entre outras insinuações e até tentativa de novos abusos. Ainda há pouca compreensão, mitos e crenças relacionados à masculinidade e desinformação que pode contribuir ou não para a revelação.

Meninos e Meninas com deficiência física, Especiais, e com Problemas emocionais. Pouco vigiados e que sofrem abuso sexual.

Padrão Familiar com relação ao incesto:

Geralmente pai muito imaturo e mãe protetora. A fronteira organizada é pouco permeável ao exterior, geralmente famílias fechadas, onde recebem poucas ou nenhuma visitas, fundadas no segredo, às vezes por várias gerações. A lei familiar substitui as leis moral e social. A criança quando vítima do abuso intrafamiliar procura a mãe para revelar ou faz insinuações, dá sinais, muitas vezes as formas de reagir das mães são as mais diversas, dentre elas: na maioria o descuido e abandono materno ficam evidentes; negar a fala da criança e acusa-la, não é raro; não reconhecer o abuso porque elas mesmas foram abusadas; figuras fracas, negligente, sem envolvimento afetivo e protetor. O pai incestuoso, geralmente faz uso de substâncias químicas, na maioria álcool.  Segundo estatísticas, o pai biológico, seguido de padrasto e parentes em geral. As técnicas de sedução utilizadas são similares às do ciclo de incesto sedutor do pedófilo compulsivo

Tipos de Abuso Sexual:

Conversa erotizada, telefonemas obscenos, imagens pornográficas, exibição de órgãos sexuais, duchas comuns, desnudarem grupo de crianças para exame médico, uso de supositórios e outros.  Masturbação forçada, relação sexual imposta, carícias e todo tipo de contato sexual.

As consequências físicas, como doenças sexualmente transmissíveis, como AIDS, Sífilis, Herpes, entre outras. Gravidez, trato urinário, com infecções de repetição, gasto intestinal, lacerações anais, encoprese, fistonas, distúrbios alimentares, sequelas de tentativas de suicídio, trato genital, dores difusas no abdômen, principalmente adolescentes, cefaleias, muita dor física e outros.

Consequências psicológicas: Risco de psicopatia grave, sequelas irreversíveis, em nível de identidade, quando começa muito cedo e tem longa duração. Desordem de comportamento aprende que carinho e atenção obtêm-se através de fatores sexuais; confusão papéis parentais perda e confusão de valores, voyeurismo, desistência dos estudos e brincadeiras, masturbação compulsiva, e exibicionismo. Dissociação do corpo aprende a comercializá-lo. Distorção da realidade externa e emocional. Toxicomania, prostituição, delinquência com relação ao abuso, suicídio, fugas, entre outros.

Consequências Sociais: Baixo rendimento escolar, discussões familiares, frequentes fugas.

A manutenção do segredo para a criança tem razões psicológicas, elas sentem que é obrigação que tem fazer o que lhe é exigido, teme repressão familiar e a si mesmo, bem como o temor da ameaça de perda do amor do relacionamento primário com o agressor.  Os abusos intrafamiliar ocorrem em segredo, imposto por violência, ameaças ou mesmo uma relação sem palavras, o segredo tem como função manter a coesão e proteger a família de julgamento de seu meio social ocorre.

Revelação do Segredo do Abuso: Pode unir ou separar as famílias, como pode gerar cura ou repetição a exploração, caso as normas protetivas para a criança não forem respeitadas. Importante ter uma rede de apoio, envolver membros não abusivos da família, ir à busca de profissionais habilitados, Promotoria Publica, Conselhos Proteção a Criança e Adolescentes, Juizado da Infância e Juventude para orientação sobre a revelação e denuncia.

Informação e Prevenção.

Devem começar cedo, muitos pais acreditam que é muito cedo para falar sobre sexualidade com seus filhos, explicar o que deve e o que não deve permitir que um adulto faça com e no seu corpo, seja ele familiar ou não, independente do vínculo. As pesquisas apontam grande número de abusos dentro das famílias. A prevenção à violência, especificamente o abuso sexual intrafamiliar deve ser dirigida a toda população, por meio do desenvolvimento de estratégias, programas e campanhas para reduzir a incidência ou o índice de novos casos. O que vemos na mídia é a exploração depois do fato consumado, sem orientação adequada à população. Vítimas e agressores precisam de um trabalho especializado para atendimento e tratamento.

Leituras sobre o assunto.

Ferrari, DCA; Vecina,TCC. O Fim do Silêncio na Violência Familiar. Teoria e Prática. Ágora. São Paulo. 2002

Furniss, T. Abuso Sexual da Criança, POA. Artes Médicas. 1993.

Imber-Black, E. e col. Os Segredos na Família e na Terapia Familiar. POA. Artes Médicas. 1993.

Pinto Jr, AA. Violência Sexual Doméstica Contra Meninos. Vetor. SP. 2005.

Sanderson, C. Abuso Sexual em Crianças. Fortalecendo Pais e Professores para proteger crianças de abusos sexuais. M.Books. São Paulo. 2005.

Seixas, MRD e Dias ML (org.).  A Violência Doméstica e a Cultura da Paz. Roca. São Paulo. 2013