Fátima Mancini Guilherme de Alcântara Freitas

Tenho pelo lado materno, avós que chegaram ao Brasil em 1956, como imigrantes italianos, em virtude da dificuldade no Pós Guerra. Estabeleceram-se em Perdizes, meu Nonno, marceneiro de profissão e músico de paixão; foi minha referência masculina, era maravilhoso. Nonna, matriarca, forte, aprendeu cedo a cozinhar, costurar, tricotar, casaram-se muito jovens, ele tinha 22 anos e ela, tinha 16 anos em 1941 tiveram quatro filhos, minha mãe, a mais velha. No Brasil as filhas foram trabalhar em uma tecelagem e os filhos foram trabalhar e estudar.

Tenho pelo lado paterno uma grande família do interior de São Paulo, com ascendência indígena e portuguesa. Meu avô era domador de cavalos, benzedor e fazia remédios com plantas medicinais, manso; de coração bom. Minha avó era autoritária, tinha muito ciúmes de tudo e todos. Casaram-se muito cedo, ele com dezoito anos, ela com treze, fato, esse, comum para a época. Tiveram nove filhos meu pai era o penúltimo, também foi trabalhar bem novo, em uma fábrica de vinhos na Barra Funda ao lado da tecelagem em que minha mãe trabalhava. Casaram-se em 1962 no mesmo ano em que eu nasci, filha mais velha com quatro irmãos. Fomos criados numa atmosfera italiana com música, massas e vinho, tínhamos as portas da casa sempre abertas aos amigos italianos ou não.

 Por parte do meu pai, a família gostava de moda de viola e festas juninas, em ambas as famílias, primava-se pela honestidade, trabalho, respeito aos mais velhos e todos deveriam estar sempre juntos por exigência das avós. Convivi com um pai autoritário e controlador, contudo provedor e cuidador e mãe forte, trabalhadora incansável, porém submissa.  Meus pais cursaram apenas o ensino fundamental, em detrimento disso queriam o melhor para os filhos e foi-nos cobrado a presença e notas boas na escola. Também comecei a trabalhar cedo, com treze anos no comércio, tranquei a faculdade no segundo ano o Curso de Letras. Como irmã mais velha, aprendi a ser a cuidadora e isso faz parte de quem sou.

Sou casada há trinta e cinco anos com um homem admirável, tenho três filhos maravilhosos dos quais tenho muito orgulho, sou avó de uma princesinha de nove nos. Construímos uma família unida, com amor, respeito e muito trabalho; como muitas famílias passamos por reveses, sempre norteados pela verdade; acreditamos que uma das melhores formas para educar é o exemplo, porque os filhos não fazem o que os pais falam, reproduzem o que os pais fazem.

Desde a adolescência trabalhei no comércio, fui supervisora nos segmentos de atacado e varejo de roupas infantis em São Paulo e Rio de Janeiro, proprietária de duas lojas as quais infelizmente perdi. Estava em um momento difícil na vida em que fui discriminada pela idade. Em decorrência disso a vida me guiou para a Terapia Familiar.

Fui contratada como secretária pela Diretora Ms. Cléo Melo do CEFATEF – Centro de Formação e Estudos Terapêuticos da Família, porém era cética em relação às terapias fato que omiti. Como secretária, tive oportunidade de assistir a todas as aulas do Curso e acesso ao conteúdo das apostilas uma vez que auxiliava na sua digitação e impressão, além do atendimento aos alunos, entre outros.

As aulas eram auto terapêuticas e me descobri experimentando determinadas posturas com minha família, ao mesmo tempo em que percebia uma mudança no comportamento dos casais que recepcionava no consultório, quando chegavam, sentavam-se separadamente e na segunda ou terceira sessão já estavam de mãos dadas no mesmo sofá.

Percebi que a Terapia Familiar Sistêmica ganhava adesão dos pacientes em resposta positiva para a manutenção do relacionamento, em função disso optei por esta formação para meu projeto de vida, entretanto necessitava da graduação que havia trancado antes do casamento.

Conclui a Graduação em Serviço Social em 2012 na FAPSS-SP – Faculdade Paulista de Serviço Social de São Paulo. Enquanto obtinha o conteúdo teórico e prático da graduação, somava-o à minha bagagem de vida e ao da Terapia de Família que já fazia parte do meu cotidiano.

O Curso de Pós-Graduação em Terapia Familiar Sistêmica representou um divisor de águas na minha vida, tanto pessoal quanto profissional. As ferramentas obtidas durante estes três anos moldaram meu olhar para entender a família como um sistema vivo e a partir desta nova perspectiva, poderei intervir de maneira mais assertiva junto às famílias que buscarem minha ajuda profissional.

Como secretária do CEFATEF, apenas recepcionava as famílias que estavam em terapia pelo atendimento social gratuito. Certa feita, confraternizando no café, uma jovem estava falando que havia se surpreendido com a história de vida de seu pai, não sabia por tudo o que ele havia passado e que explicava porque agia de maneira tão rude.

Refletindo sobre a frase daquela filha sobre seu pai, compreendi a importância e a finalidade da Terapia Familiar que é proporcionar um espaço e forma mais saudável da família de se relacionar revendo seus padrões e levar para casa o exemplo bem sucedido no consultório.

Acredito que somos o resultado do que experimentamos, assim sendo a contribuição de ciências como Antropologia, Sociologia, Psicologia Social, Filosofia, bem como outros tantos saberes, sobre homem, família, sociedade, cultura e os processos sociais que foram apresentados na graduação, constituíram-se em fonte inestimável de conhecimento.

Da mesma forma em que durante a Pós-Graduação fui apresentada a autores excepcionais que com sua pesquisa contribuíram para o desenvolvimento e fortalecimento da Terapia Familiar. Nossa bagagem de vida, como filha, esposa, mãe, profissional, amiga, irmã e muitos outros papéis sociais que desempenhamos também constitui–se em laboratório para os atendimentos.

Quando por fim, era eu uma dessas terapeutas que acolhia e legitimava a família e pude relatar neste trabalho o que vivenciei ratificando o poder de transformação proporcionado pela Terapia Familiar Breve para o atendimento familiar realizado por ocasião do Estágio Supervisionado, no CEFATEF – Centro de Formação e Estudos Terapêuticos da Família.

          Como tudo o que é novo, sente-se insegurança ao deparar-se com a família fragilizada, procura-se escolher, com cuidado o que irá dizer, atentar para não levar os próprios valores para o atendimento e principalmente no estar por inteiro no processo, frase sempre trazida por minha Mestre Cléo Melo em suas aulas.

Posso dizer que foi a Terapia Familiar que me escolheu…