DESAFIO PROFISSIONAL NO TRABALHO COM FAMÍLIAS

DESAFIO PROFISSIONAL NO TRABALHO COM FAMÍLIAS.

No fundo, no fundo a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto. Mas problemas não se resolvem sozinhos, problemas têm família grande e aos domingos saem todos para passear, o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas (Décio Pignatari).

Mudou a família, mudou o mundo, mudamos todos e cada um. Sociedade nova, pós-moderna, contemporaneidade, homem novo, nova mulher, internet, globalização, todas estas são expressões incorporadas à linguagem de transição de milênio. Chama-nos atenção um importante fato: o surgimento de uma nova sociedade, de novos sujeitos sociais, não resulta de um ato mecânico, nem por decreto nem automaticamente. A sociedade nova é construída e (re) construída historicamente, em nosso cotidiano.

Essa crescente complexidade da realidade, que abrange todas as esferas sociais, tem indicado a necessidade de pensar/agir sob uma nova perspectiva, em que possa ser considerada a existência de uma multiplicidade de elementos, em detrimento do reducionismo unitário de uma certeza absoluta que, por muito tempo, vigorou nas esferas da produção do conhecimento. Deste modo, tem-se colocado como desafio a busca por conhecimentos que promovam a articulação entre as diferentes áreas do saber e que estabeleçam os nexos entre o uno e o múltiplo, o diverso e o complexo. Aliado a este desafio, a ciência convive com conhecimentos fragmentados e, concomitantemente, com a instauração de propostas de concepções complementares, concorrentes e muitas vezes antagônicas, nessa busca pela ampliação das fronteiras entre os saberes.

Temos assistido arbitrariedades que estão superando todos os tempos. A violência urbana é uma constante, temos acompanhado que o índice maior de brutalidade e violência vem acontecendo em um invólucro sagrado, chamado desde os primórdios, de família. O que está acontecendo com o homem e a família, violências com requintes de crueldade são estampadas assim que abrimos os jornais diários, o limite ultrapassou as fronteiras do público e tem se instalado no privado, cada vez chegando mais próximo de nós e de nossas famílias, a violência está batendo em nossa porta, já foi a vez do vizinho.

Estamos cada vez mais convictos que o profissional que aceita o desafio profissional de trabalhar com famílias, deve se preparar para o confronto, confronto este do conhecimento caso contrário ficará exposto e vulnerável.

Quando iniciamos o curso de família há dezesseis anos, nosso foco principal foi abordar primeiramente o profissional em seu próprio contexto familiar. Acreditávamos que só quando o profissional repensasse seus valores, seus problemas, sua vida, refletindo de modo mais profundo sobre si mesmo e nas relações com sua própria família, ele conseguiria entender melhor as famílias por eles atendidas, sem levar seu modelo familiar ‘normal’ para o atendimento. Com o decorrer do tempo, com todo esse cenário cotidiano que vivenciamos desse foco inicial fizemos nosso princípio.

 Esse é nosso guia básico para formação e aperfeiçoamento no trabalho com famílias, o de maximizar o crescimento de todos os participantes do processo. Insistimos muito para que o profissional comece aumentando sua capacidade de se envolver, de forma pessoal mesmo, com o outro. A impessoalidade e o que é pior a indiferença já impera no mundo externo. O profissional que encara esse desafio de trabalhar com famílias, precisa se aprofundar tendo a oportunidade de olhar para sua própria família a partir de uma ótica mais complexa. Até para fugir e se livrar das dicotomias de bons x maus, vítima x culpado, etc., introjetada culturalmente e impregnada socialmente, os profissionais de família precisam ter sua acomodação de espectador perturbada, para que possam se tornar um participante ativo nesse processo.

Esse é o primeiro desafio, enfrentarmos nosso próprio mundo, para ficarmos livres para enfrentarmos por igual o mundo de uma família, que ao contrário do que imaginamos são fortes e flexíveis.

Quando trabalhamos as histórias de vida, os conflitos, as diferenças, as relações familiares, evitamos projetar valores e modelos adquiridos em nosso meio familiar às famílias atendidas, logo percebemos que certos modelos de vida não servem como referência para atendermos o outro. Quando atendemos a família temos o dever de motivá-los, mas não o direito de dizer-lhes como crescer ou mudar. Se passarmos modelos de vida para a família, estamos considerando que a certas formas de vida é superior a deles, e não há nenhuma evidência para acreditarmos nisso, aliás, temos algumas, em nossa própria família, que servem para comprovar o contrário.

Depois passamos a desconstruir os padrões vigentes de que o profissional deve assumir todos os cuidados e responsabilidades das famílias. Pois, quanto mais sentimos a necessidade de assumir a responsabilidade por uma família menos acreditamos na capacidade desta família de ser competente. Devemos evitar convencer as pessoas de que elas são ineptas. Devemos ser receptivos para com a família, sem ser responsáveis por eles.

Trabalhamos o crescimento pessoal dos profissionais de família, provocando-os a cada aula para que tragam um pouco mais de si mesmos, antes de se fortificarem com a armadura das teorias e técnicas[1] que serão transmitidas. Acreditamos que as teorias e as técnicas oferecem proteção, confiança e conhecimento, mas nos afastam da coragem necessária para encararmos esse desafio como compromisso pessoal.

O segundo desafio é o de passarmos o conteúdo teórico e depois pedirmos para que o deixem em segundo plano, quando nos detemos demais nas teorias nos esquecemos da pessoa, vamos para um atendimento somente com nosso uniforme de profissional. Procuramos transmitir referenciais teóricos existentes para balizar a prática do profissional, nos esforçando para convencê-los que essas teorias não são dogmas, eles têm que estar livres para escolher as que lhes pareçam mais adequados. Procuramos motivá-los a buscarem suas subjetividades, a valorizar mais seu modo de pensar e de perceber o mundo.

Iniciamos com os conceitos teóricos dentro dos contextos socioculturais e econômicos, com abordagem histórica da família às leituras contemporâneas sobre as novas configurações familiares e somente depois iniciamos com as abordagens da teoria sistêmica e da família como sistema. O fundamento teórico, pano de fundo, que permeia todo o processo do curso é da Teoria Geral dos Sistemas, a abordagem estrutural de Salvador Minuchin e a abordagem estratégica de Jay Haley são privilegiadas logo no primeiro momento por apresentar de forma transparente como podemos ampliar nossa visão sobre a família. É um exercício de desconstrução da visão linear de causa x efeito, bastante introjetada quando se trabalha com famílias.

Esse é o terceiro desafio profissional, como nos diz José Paulo Neto (1991) se faz necessário elaborar respostas mais qualificadas do ponto de vista operativo e do ponto de vista sociopolítico para que possamos atender as demandas que hoje nos são impostas no âmbito de nossas intervenções profissionais, e para isso precisamos adquirir novos saberes e novas competências críticas.

O desafio final e o de maior complexidade é o trabalho inter, multi, transdisciplinar, que apesar das diversas denominações e estudos sobre essa temática, é o mais difícil de assimilação prática. Lutar com o saber hegemônico é um dos mais calorosos desafios contemporâneos. Quanto mais buscamos a especialidade mais nos distanciamos da totalidade, porém uma não exclui a outra, é uma E outra (assim agregadas). Temos que compreender o momento da história que estamos vivendo e sermos mais propositivos que executivos, e para isso precisamos aprender a compartilhar e articular novos saberes.

O profissional que aceitar o desafio contemporâneo com família será aquele que pesquisa, pensa, analisa, reflete, decifra e desvenda uma realidade objetivamente posta, com atitude investigativa para múltiplos saberes. Iamamoto (1992).

Portanto, colocamos na ordem os desafios profissionais para o trabalho com famílias: Primeiro privilegiar o lado humano na relação com o outro; depois reconhecer-se no contexto em que vivemos e atuamos em seguida buscar abordagens novas e originais para recompor o leque de possibilidades para intervir junto às famílias e finalmente compartilhar os saberes, trabalhando em equipes interdisciplinares, com projetos multidisciplinares e com objetivos transdisciplinares.

Cléo Melo

Referências Bibliográficas
IAMAMOTO, M. (1992) Renovação e conservadorismo no Serviço Social. São Paulo: Cortez.
MELO, C.P. O Diálogo sistêmico da Família com e o Serviço Social: Do   Re(conhecimento) familiar do profissional ao referencial Sistêmico do Trabalho com Famílias, Dissertação de Mestrado, PUC/SP, 2003.
NETTO, J. P. (1990) Ditadura e Serviço Social. São Paulo: Cortez.
SOUZA,A. M. N. (1996) A família e seu espaço.Uma proposta de terapia familiar. ª edição. RJ: Agir.
WHITAKER, C. & BUMBERRY, W. M (1990) Dançando com a família. Uma abordagem simbólico-experiencial. Porto Alegre: Artes Médicas.

[1] Essa assertiva é de Whitacker, ( 1990: 29)